A criança em ruínas

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu, depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. 

hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva. cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.

O trecho faz parte do livro A Criança em Ruínas, de José Luis Peixoto. Nascido em Portugal, o autor já escreveu romances, contos, poemas e peças de teatro.

Sobre o livro citado, Peixoto explica que chegou ao título refletindo acerca de quanto da criança que fomos ainda permanece no adulto que somos — seremos nós as ruínas dessa criança? 

Quando pensamos na nossa infância, é quase inevitável não sentir saudade. A gente sente falta das coisas boas que conhecemos, de ter a família por perto e de enxergar felicidade na hora de pôr a mesa.

Com o passar dos anos, tudo vai ficando complicado. Mudamos de cidade, nosso irmão se casa e nossos pais vão embora. 

  • Como escreveu Camões, a vida é feita de mudança e nesse movimento perde-se muito.

Mas será que perdemos mesmo? Na hora de pôr a mesa, você está servindo a receita da sua mãe. O vinho que está na taça, você aprendeu a beber com o seu pai e a música que toca é a mesma que você escutava com seu irmão.

A verdade é que nunca estaremos sozinhos. Como somos o conjunto de todas as pessoas e momentos que passaram em nossa vida, no fundo, nada vai embora — um pedaço sempre fica.

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